sábado, 28 de maio de 2011

Bernardo Soares, um homem estranho

Num dos fragmentos que compõem O livro do desassossego, Bernardo Soares, como sempre categórico, solta a seguinte assertiva: É sobretudo de conhecer que nos cansamos. Viver é não pensar. Em resumo, acredito que estas duas orações correspondem à tese central do livro abordado; nos primeiros momentos do monumento letárgico de Fernando Pessoa, sabemos que as diversas páginas que sucederão formam uma autobiografia sem fatos de um sujeito que teve uma não-vida, portanto que apenas pensou e agiu como que instintivamente, fadado à vegetação patrocinada pela razão que impele ao conhecimento, o mesmo que traz a desordem e a aporia. Bernardo Soares, ainda que muito sonhador, não oferece concessões e fugas aos que procuram promover qualquer sentido que derive da realidade que se pode vislumbrar com olhos de pouca interrogação. Para ele, mesmo que sejam suscitados variados pontos de vista sobre objetos múltiplos, estamos condenados a sermos escravos de dilemas que não se clareiam nem mesmo à luz da razão; desse modo, como diz num fragmento, Haja ou não deuses, deles somos servos. Conduzir-se ao estranhamento, manifesto em tudo quanto possa ser contemplado, equivale a servir a uma causa imposta por um demiurgo obscuro, engenhoso por ter nos deixado como rastro de sua existência somente labirintos e problemas irredutíveis, os quais, uma vez que observados cautelosamente, comprime quem os sabe a mero grão desimportante, em que se vê o estigma do pecado original. Retificando o conteúdo da tese central, diz de si mesmo um dissidente da vida, que, para entender-se, em vez de coexistir em companhia dos outros, desfrutando a satisfação de lidar prazerosamente com afazeres cotidianos, preferiu o alheamento, destruindo, desvario após desvario, toda e qualquer possibilidade de ser homem convencional, igual àqueles que vivem segundo o que se promulga como diretrizes da sociedade.

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