segunda-feira, 8 de julho de 2013

Revolta no céu

Há calma no céu.
Os anjos não tardam a se rebelar:
sorriem com sarcasmo da preguiça dos santos
e da oração sem caridade dos fiéis.

Entre si, como em conluio, dizem mal da serenidade de Deus,
consideram com gravidade a sua paciência
- e, sensíveis, inquietam-se com os planos divinos,
para os quais a salvação individual deve emergir da funesta alteridade.

Radicalmente ligados à vida dos homens,
exercitam-se na angústia como nós,
e as suas feridas espirituais também ardem...
- quando olham o nosso mundo das salas suntuosas do céu.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Violência sagrada

Quando se vive em estado de exceção, e quando a própria realidade se torna uma crítica radical do direito, o caráter destrutivo absorvido pelas massas constitui o que fogo representa nos rituais profanos de incineração - isto é, libertação, violência sagrada!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Conhecimento: uma ideia

Derivado de uma relação causal com a vida, onde a ideia se estabelece em face da exterioridade dos fenômenos, o conhecimento, ao que tudo indica, revela-se como produto inacabado da subjetivação dos objetos e da natureza em variados níveis intelectivos, dos quais se depreende a sua formalidade ou informalidade. Ora, embora esteja enraizado na experiência, a sua substância difusa tende a causar, até mesmo involuntariamente, rupturas com o tecido simbólico em cuja extensão arraigam-se os vícios mais condenáveis encontrados no cotidiano. Concebê-lo abstraído da relação de dependência que mantém com o mundo concreto, das coisas tangíveis, não só reafirma a aparente arbitrariedade do que se nos revela à sensibilidade imediatamente, como conduz-nos a enxergá-lo, o conhecimento, tal qual um dos níveis abstratos característicos à ontologia clássica: intraduzível na linguagem conceitual, fixa-se como dimensão inefável, à qual só é permitida a contemplação distanciada, que buscamos inutilmente para nos saciarmos mais de perto. Desse modo, embora reconheçamos a difícil empresa de mensurar a razoabilidade de algo com base exclusivamente na sua exterioridade, estamos cientes de que aquilo que se aloja sobre o espírito é mais que pele - é a mediação necessária do indivíduo com a verdade.

domingo, 9 de junho de 2013

Fastio

Fixo às retinas a linha sem fim do horizonte,
reta inalcançável onde o mundo acaba.
Quantos desafortunados tenham existido
e que, entre todas as paixões, não tenham
a nenhuma delas se inclinado, houve para eles
o tempo em que se flagraram a caminho da distância,
com as vistas esquecidas em imagens
inexprimíveis, no céu desnudo que não
oculta segredo algum, que é imenso nada.

Fixo às retinas as fotografias velhas,
fantasmagoria amalgamada de nossa felicidade congelada;
miro a estante dos livros, os objetos comprados,
o pó acumulado displicentemente sobre todos os móveis...

E o tempo sobe-me à goela num refluxo do estômago.

Nota sobre epistemologia

Tendo como objetivo central a incursão metacrítica sobre as inferências teórico-metodológicas acerca do conhecimento, a epistemologia figura como disciplina de importância inquestionável para o progresso da atividade filosófica, uma vez que a contorna de elementos cuja singularidade engendra uma visível oposição argumentativa com as ciências no que diz respeito às discussões afiançadas sobre o conhecimento.

Sua finalidade tende a eliminar os excessos característicos à atividade teórica, estabelecendo, mediante recurso ao exame crítico rígido, a validade subjacente entre os elementos postulados. Criando limites entre conhecimento comum e reflexivo, traz à tona o motivo pelo qual o saber conflui com todo tipo de fatuidade: ao voltar-se conscienciosamente sobre si mesmo, tal como se preconiza desde a antiguidade, o conhecimento filosófico descarta qualquer infalibilidade, reafirma o seu caráter ético, sendo, sobretudo por isso, mais honesto quanto a suas limitações e potencial de alcance.

Ora, a epistemologia se funda mesmo na necessidade de se justificar as nossas crenças, de calcar o que ajuizamos sobre bases sólidas, de modo a concentrar no esforço de sua tarefa a ruptura do discurso intelectual com as formas mais genéricas de se conceber o mundo, atando os meios e instrumentos utilizados na produção reflexiva a um ininterrupto exame crítico cujo ponto culminante é o ceticismo.

Quando radicalizamos nossas indagações sobre os dados a partir dos quais inferimos, obliteramos a fecundidade do conhecimento porque, de um modo ou de outro, nossas crenças parecem se sustentar lateralmente, marginando do seu raio de ação tudo o que não é correlato aos seus próprios interesses. Daí, portanto, a clássica postura cética de suspender os juízos morais: fixados que são a um agrupamento de questões locais, quase nunca satisfazem os interesses gerais na medida em que se fundam sob a égide da experiência e das crenças mediatas.

Desse modo, a teoria do conhecimento parece estar interessada, antes de tudo, nas conclusões, naquilo que pretende o exercício cognitivo formal: se, por um lado, reconhece na dúvida metódica o seu instrumento de trabalho mais valioso, posto que através dela preenche de vida a especificidade da análise filosófica do conhecimento, de outro, porém, o ceticismo parece encerrar o seu interesse mais central – isto é, a investigação das possibilidades do conhecimento.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Rua da Frente

O alarido dos trabalhadores
é o mesmo. Cada boca resmunga
o sabor de ferrugem do pão.

O sol se inclina sobre testas envernizadas,
intromete-se entre o enxame caloroso da condução,
e encharca de suor a farda, a vestimenta barata,
lacerando os pingos de jovialidade que coravam
de pouca alegria rostos tão humildes.

Uma canoa envelhecida, há pouco desembaraçada do cais,
vai ter com o rio. Olho-a dos meus 20 anos,
da altura de modestos sonhos, e a sua lentidão
nostálgica inunda de pesar minhas retinas.

Sob o céu há também um barco à deriva:
há estas horas opacas olvidadas por Deus.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ruminando

De uma definição para homem: um desperdício de matéria, um aglomerado inútil de energia.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Anos de cão

Espanta-me, sobremaneira, o tráfego dos anos. Nem a morte, com suas variáveis tenebrosas, nem os torvelinhos cotidianos, sempre a nos infligirem medo, absolutamente nada enreda-se mais assustadoramente em uma alma que o fluir dos anos. É neste exercício involuntário de forças escusas, onde o tempo absoluto se corporifica em fatos, que cada encanto individual, que cada aspiração presente, vindo a ser negativa ou positivamente, amontoa-se no passado como uma obra suja e carente de significação, sendo a vida mesma a conjuração contínua de uma indecência imanente onde tudo, quaisquer que sejam as conveniências, é desintegrado ao estado de pó. O bafo frio dos séculos, potencialmente sentido por todos, quando absorvido através de um influxo individual contemplativo, não só tortura, não só desgasta – não só obstrui à vida as sensações de prazer atenuantes – mas, conduzindo quem o experimenta ao marasmo espiritual, aflui na vida de dentro como um mar caótico sob o céu negro e intempestivo, acima do qual nada enxerga ou respira.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Sobre o ensino de filosofia

Recentemente, fui noticiado por uma mãe de que o seu filho havia reprovado em filosofia. Indignada, ela me colocou a seguinte questão: qual a necessidade de uma pessoa ter essa disciplina no 2º ano do ensino médio?

Ora, não a tirei da razão por questionar a utilidade da referida matéria na "educação" do seu filho. Entretanto, o que vejo de problemático não é o ensino de filosofia em si, como também não o acho o ensino de religião ou de educação física e a consequente possibilidade de reprovação numa dessas disciplinas.

O fulcro da questão concentra-se, no meu ponto de vista, na falta de interesse dos pais em saber se o quadro geral de matérias tem sido abordado em consonância com uma metodologia de transmissão do conhecimento coesa. Este fator crucial no despertar da atenção dos alunos para o que está sendo passado, não estando restrito apenas ao âmbito das disciplinas marginalizadas, diz respeito também ao ensino de matemática, biologia, física, química, português... – todas as matérias.

A utilidade da disciplina filosofia na educação humanística de uma pessoa dispensa um novo comentário extenso, uma nova abordagem: tendo em vista a obviedade da finalidade mais geral da matéria, culminaremos nas mesmas conclusões das várias discussões afiançadas nos últimos tempos em veículos especializados e em periódicos semanais de direcionamento popular.

No entanto, é válido reafirmar que a agenda de interesses da filosofia contempla o aspecto crítico da formação, colocando em relevo entrelinhas sobre as quais as ciências convencionais não se debruçam. Se em história normalmente se revisita o passado com base nas vitórias e conquistas das classes dominantes, em filosofia se discutirá os métodos de abordagem do objeto da ciência histórica com base no paradigma da universalidade, o que respalda a importância da ética no debate filosófico, havendo aí a possibilidade de se concluir que a forma de abordagem x do passado não é, como parece, tão razoável.

Uma incisão mais rígida sobre o tipo de ensino ofertado por essas instituições educacionais coloca em xeque não só a proficiência dos professores em transmitir o conteúdo das respectivas matérias que lecionam, mas a própria finalidade da educação convencional em um mundo lacerado pelos dispositivos sociais atuais.

Quando a educação não se coloca em oposição ao contexto adverso que a envolve e assume a essência apodrecida daquele, não só se transforma naquilo que esse contexto é, mas também fornece provas de que não tem mais nada a despertar nem a ensinar. O desinteresse geral, então, estabelece-se como consequência de uma realidade educacional que, ao tentar competir com o mundo absorvendo-o superficialmente, torna-se incapaz de suscitar curiosidade, paixão: a competição por bons resultados existente na escola é a mesma competição vista recorrentemente na sociedade; a absorção do conteúdo exangue das disciplinas é a mesma tarefa repugnante vivenciada na resolução dos trâmites do mundo burocrático.

Assim, se a filosofia não é direcionada a um exame crítico ininterrupto da realidade dos alunos, reservando-se à mera discussão mecânica de problemas metafísicos pouco atraentes que servirão de base para a solução de uma prova idiota, passa a não se diferenciar de uma disciplina qualquer, tornando-se igualmente dispensável e chata.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Deus

Sendo fonte de todas as coisas, Deus as preenche de vida, servindo-lhes como um referencial de cuja natureza todas elas dependem para poderem existir. Embora sejam múltiplas, carregando consigo a marca da incompletude e da queda, singularizando-se na medida em que buscam autonomia, todas elas se voltam a ele continuamente, todas elas compõem uma pluralidade em recorrente processo de conversão ao seu criador. Embora sua condição vegetativa pareça apontar o contrário, embora a corrupção que lhes define e afasta da salvação contrarie os eufemismos teóricos humanistas, as almas diluídas nessa multidão insignificante têm qualquer coisa de divino. Sobretudo a purulência cruel do seu egoismo.