sexta-feira, 20 de maio de 2011

Reflexões a partir de uma aula de Filosofia da Educação

Questionado por um colega sobre como o conhecimento, senão exclusivamente pelo esforço, poderia ser gozado por nós no seu teor mais sublime e elevado, disse-lhe que só através da compenetração uma alma pode adquirir tais qualidades, não havendo outras vias para chegarmos até elas. Aquilo que conquistamos através do esforço carece de significância espiritual e difere, no que diz respeito aos aspectos qualitativos, daquilo que conquistamos por termos sido, em medida coerente, compenetrados. Quero acreditar que falta aos profissionais da construção civil um olhar espiritual em relação ao trabalho que desenvolvem. Mas a carência apontada, contrastando com o contexto em que estão inseridas as pessoas que deveriam usar-se exclusivamente da reflexão, dá-se mais por causas exteriores aos profissionais da construção civil do que pela vontade que poderia lhes conferir melhores condições de trabalho ou mesmo uma atividade profissional totalmente diferente da que exercem. Gostaria de sugerir, a título de esclarecimento, a seguinte situação: suponhamos um aluno de filosofia que tem de dissertar, a fim de alcançar uma boa nota, sobre a concepção de infância em Platão tomando como referência teórica as palavras de certo comentador sobre o tema. É muito pouco inusitado que o pensamento de um filósofo, por ter sido elaborado mediante muita observação e meditação, é permeado das mais variadas particularidades; assim não deixa de ser, portanto, com o filósofo que atavia a nossa argumentação. Agora suponhamos que os aspectos sobre o pensamento do ateniense descritos pelo comentador, que o aborda à sua maneira, tenham de ser transcritos pelo aluno de modo que ele alcance boa nota na prova mencionada, mas sob a suspeição de um limite irresoluto de tempo e numa fração de linhas relativamente reduzida. Ainda que o faça com perfeição, o que nos garante que o esforço despendido para cumprir essa tarefa lhe garantiu o que o professor pretendia ao aplicar-lhe a prova – o conhecimento? Ainda que a sua nota na prova em questão seja a mais alta, o que nos garante que o conhecimento adquirido por esse aluno é verdadeiramente autêntico, uma vez que ele deriva de reflexões que já estavam dadas, o que nos alerta para o fato de que a sua nota não modela em nada as suas crenças? O que quero dizer é que, ainda que tire um A, a sua atuação sobre a realidade se dará sem a influência do conhecimento apreendido para resolver uma questão, porque até aqui, como está claro, o saber não esteve liberado das grades do esforço, mas achatado a um limite de tempo, de linhas e sob concorrência de uma meta a ser alcançada ao final do período. Ora, o conhecimento não deve ser posto à prova, de tal modo que, testando a sua substância por intermédio de meios dúbios, teçamos juízos sobre ele; se é assim, ele não reconhece perenidade e se reduz a uma satisfação momentânea, como se, numa situação isolada, pudesse ser logrado na sua completude. Sugiro, desse modo, que em vez de testado, colocando-se assim a necessidade de quem o procura sob o jugo de uma prova, o conhecimento seja expandido, alargado. Que uma cadeira de madeira é feita por um marceneiro não nos é novidade; mas de que madeira ela é feita e as conseqüências que a sua existência imputam ao lugar de onde ela foi tirada, a nós, meros usuários dela, é algo totalmente desconhecido. Se nos compenetramos na feitura dessa cadeira, quebramos o fluxo através do qual as coisas do mundo chegam até nós, posto que tudo, sem exceção, torna-se objeto de nossas análises. E analisando a tudo paulatinamente, da forma que não deseja o mundo das posturas imediatas e objetivas, alcançamos um conhecimento acerca das coisas muito mais autêntico e profundo. Sendo assim, façamos coro não pelo suposto conhecimento que pode ser açambarcado pelo esforço, mas defendamos com veemência aquele que pode nos trazer a compenetração.

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