Sobre a desilusão de Coélet. A consternação de Coelet com a essência ilusória do trabalho está sustentada na sinceridade emocional de um homem abastado e maduro que sente na medula o vazio de suas obras. Frente à fotografia burlesca de sua sepultura, da inevitabilidade excessiva de sua morte, todo pergaminho agora carece de razão. O avanço do tempo sobre os limites da vitalidade corporal oferece ao indivíduo as senhas que decodificam o segredo da existência. Quem define a si mesmo pelo que constrói é comprimido pelo cansaço, esmagado existencialmente pela inutilidade metafísica da matéria. Sobre os cumes ermos da desilusão, Coelet toma em vista a vastidão de seu império e, deparando-se com a comodidade dada à descendência para se assenhorear dos feitos com os quais se afadigara debaixo do sol, inebria-se com a fatalidade do destino, que consome a justos e injustos da mesma forma, enlevando, sobre todas as ações com que se tece o manto fútil das vaidades, o gozo inerrante da alegria - o deleite saboroso com os melhores frutos de seu trabalho. Como na Jônia, também em Jerusalém tudo deriva do amor, tanto mais quando ele é alçado ao auxílio emergencial dos pobres; porque, se a um rei acercado de todos os mimos uma vida de trabalhos parecerá vã, muito mais o será para o seu escravo, a quem se reservou a construção de fato daquelas obras. E assim também o será pela lógica atroz do esquecimento, que chafurda os grandes realizadores na mesma cloaca escura que consome aos indigentes, sem que os pósteros celebrem o seu nome pela força atemporal de suas realizações. No arremate sombrio emplacado por essa desilusão, que demarca através de uma imagem exacerbada da finitude os limites da ação humana, a presença inefável do divino passa a se fazer vista em tudo o que foge, como um estado imóvel cuja largueza compreende e absorve todas as lacunas.
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